quinta-feira, 13 de abril de 2017

MOMENTO DE POESIA – DESTINO



DESTINO
Olhaste para mim
Como se olhasses para uma folha de papel vazia
Onde querias gravar as palavras
Do nosso destino.

Pedi-te que deixasses
Espaço bastante entre as linhas
Para que eu pudesse escrever
Nas entrelinhas.

Não quiseste ouvir-me.
E quando tentei que chegasse junto a ti
O meu sentir,
Faltava espaço para me exprimir.

O nosso destino passou a ser
Apenas o que desejavas para nós.
Mas uma só vontade não basta
Para dois trilharem um caminho a sós.

Sem esperança de retorno,
Deu-se a despedida.
Cada um seguiu o seu destino.
E, agora, eu já não sou uma folha de papel vazia.


Mariazita

PS – Vou ausentar-me por uns dias. Quando regressar agradecerei todos os comentários recebidos.
A TODOS UMA PÁSCOA MUITO FELIZ!

quarta-feira, 22 de março de 2017

GOSTO…


GOSTO de aves, altaneiras e velozes como o vento, das suas penas coloridas, das suas plumas…


 GOSTO de chapéus, chapéus com plumas


que oscilam quando o vento lhes bate de mansinho


GOSTO do vento manso que, por vezes, acaricia suavemente as folhas das árvores, os ramos executando movimentos sensuais…



outras vezes arrastando as folhas rudemente pelo chão, fazendo-as rodopiar em danças frenéticas, com loucas coreografias a esmo, rodando, rodando sem fim, até que, sem forças, repousam na berma da estrada…
GOSTO do vento furioso, forçando as frinchas das janelas, assobiando sinfonias por si mesmo compostas…



GOSTO de relógios


 O Homem quis dominar o tempo... e inventou o relógio.
Mas o tempo riu-se, e continuou a caminhar. Sabia que nem o mais refinado relógio conseguiria aprisioná-lo.
O Tempo! Esse senhor que ao longo dos anos vai acumulando lembranças, boas e más, que marca os rostos com os sulcos da vida, que tece belos casulos de luar para guardar segredos, que leva os sonhos para o mundo do faz de conta…
Esse mesmo Tempo que passa ligeiro, e um dia, nas trevas do desencontro, nos mostra um relógio que apenas tem corda para mais alguns segundos…
Importante é aproveitá-lo... antes que ele desapareça ...

GOSTO do sol indiscreto entrando pelas janelas, assenhoreando-se do quarto onde durmo, derramando-se na cama onde acabo de acordar.



GOSTO da imensidão do mar que em tempos longínquos levou os portugueses até terras da Ásia e da América…

(A emigração funcionava ali até 1930. Hoje é um Museu, onde se encontram os registos dos emigrantes que aportaram a New York, por mar.)

GOSTO de cavalos, esses nobres animais de porte altivo, pertencentes à família dos equídeos, por vezes, com sucesso, usados em equoterapia (recuperação da coordenação motora de certos deficientes físicos), adaptados a trabalhos agrícolas e transporte, desportos e jogos, como pólo, provas de equitação e corrida,


onde podem atingir a incrível velocidade de 60 Km/hora.
São inúmeras as histórias de comportamento admirável de cavalos em campos de batalha, já que, até meados do século XX, foram usados de forma intensa nas diversas guerras que grassaram durante esses longos anos.
Ainda hoje existem as unidades de cavalaria, embora, felizmente, os cavalos já não estejam expostos aos perigos das guerras antigas

GOSTO…
GOSTO de ti quando chove, dos teus cabelos molhados,
GOSTO de ti ao nascer do sol, com o raiar dum novo dia, o rosto irradiando felicidade,
GOSTO de ti quando choras, as lágrimas sulcando-te o rosto, pérolas brilhando quais diamantes…

 GOSTO DE TI!

sexta-feira, 3 de março de 2017

MOMENTO DE POESIA

AMOR SEM AMOR
AMOR SEM AMOR

Beijaste os meus cabelos de mansinho
Com carinho jamais experimentado.
O teu suave gesto apaixonado
Meu coração deixou em desalinho.

Sem defesas ou simples resistência
Num querer e não querer entregar-me,
Um sinal que pudesse libertar-me
Dias sem fim pedi à Providência.

Nem o mais leve sinal me chegou.
Tua insistência fez-me estremecer.
Tive que decidir sozinha o que fazer:
Olvidando essa luz que me cegou.

Esperar um pouco, e o amor preservar?
Nem Penélope por Ulisses o faria
Nos vinte anos de espera em agonia
Apenas tendo o filho p’ra cuidar.

Como queres, meu amor, o meu amor,
Se eu não tenho amor para te dar…?
O sonho era bonito, p’ra sonhar…
Mas nada mais do que isso, meu amor!

Mariazita
19.02.2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DIA DE ANIVERSÁRIO


Hoje festejo o meu nono (9º.) aniversário.
Começo por vos oferecer esta prenda.




Aniversário
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais  copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...


Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
15/10/1929
 Foi-se mais um ano!
Apesar de algumas dificuldades e obstáculos, comuns ao mais comum dos mortais, consegui a energia necessária para vencer mais um, e assim perfazer 9 anos de vida.
Na caminhada foram-se perdendo alguns amigos, uns quantos neurónios e alguns cabelos J, amores e desamores, e cores, memórias,  alegrias e ilusões, tristezas e certezas, até verdades que pareciam indiscutíveis…
Sonhos, planos, alguns realizados outros ainda por realizar, foram acontecendo à medida que os dias iam passando…
Dias de entusiasmo, dias de coragem e de convite à luta, na tentativa de conseguir algo novo e diferente…
Pensamentos como pássaro que pousa e logo voa, e quando nos apercebemos já partiu para não mais voltar…

Viver e desfrutar intensamente, por vezes com paixão e sem medo nem culpa de sentir prazer, sem preconceitos ou falsos pudores, criar e recriar a vida, expor os seus amores, sorrir e brincar, por vezes chorar…

Assim é a vida da(o) blogueira(o), assim são as actividades dum blogue.
Assim percorri os últimos nove anos nesta “CASA” que é vossa, pois só com o vosso apoio foi possível chegar até aqui.

A todos um grande
BEM HAJAM!

A minha querida Amiga Lindalva ofereceu-me este miminho que partilho convosco.
 Obrigada, Amiga Lindalva

.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DIA DE REIS


Hoje, dia 6 de Janeiro, é DIA DE REIS, o dia em que se comemora a chegada dos Reis Magos ao Presépio, que ali foram para adorar o Menino, levando-Lhe, como oferendas, ouro, incenso e mirra – assim reza a História. 
 É neste dia que, “oficialmente” se encerram os festejos natalícios. 
À laia de despedida… (das Festas Natalícias) partilho convosco este “presente” que me foi enviado por um querido amigo brasileiro. 
Espero que gostem tanto como eu apreciei. 
 Um feliz 2017 para todos.

EU NÃO GOSTO DE VOCÊ PAPAI NOEL
 Não gosto de você Papai Noel! 
 Também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia. Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humildade jogavam pedras nessa fantasia. 
Você talvez nem se recorde mais! 
Cresci depressa e me tornei rapaz, sem esquecer no entanto o que passou... 
 Fiz um bilhete pedindo um presente, e a noite inteira eu esperei contente... 
 Chegou o sol, e você não chegou. 
 Dias depois meu pobre pai, cansado, trouxe um trenzinho velho, enferrujado, que me entregou com certa hesitação. Fechou os olhos e balbuciou: 
- É pra você. Papai Noel mandou! - E se esquivou, contendo a emoção. 
 Alegre e inocente nesse caso, eu pensei que meu bilhete, com atraso, chegara em suas mãos no fim do mês. 
 Limpei o trem, dei corda, ele partiu, deu muitas voltas... E meu pai sorriu e me abraçou pela última vez.  
O resto só eu pude compreender quando cresci e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse a medo: 
- Onde é que está aquele seu brinquedo? Eu vou trocar por outro na cidade. 
 Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar. E como quem não quer abandonar um mimo, que lhe deu quem me quer bem, eu disse medroso: 
 -Ah, eu só queria ele! Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele, e por favor não vá levar meu trem. 
Meu pai calou-se e pelo rosto veio descendo um pranto que, eu ainda creio, tão puro e santo só Jesus chorou. 
Bateu a porta com muito ruído, mamãe gritou, ele não deu ouvidos, saiu correndo e nunca mais voltou... 
Você! Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos. Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre para riqueza do menino pobre, que sonha o ano inteiro com o Natal! 
 Meu pobre pai, doente, mal vestido, pra não me ver assim desiludido, comprou por qualquer preço uma ilusão... 
 Num gesto nobre, humano, decisivo, foi longe pra trazer-me lenitivo, roubando o trem do filho do patrão! 
 Pensei que viajara. No entanto, depois de grande, minha mãe, em pranto, contou que fora preso. 
 E, como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia. 
 Foi definhando até que Deus, um dia, entrou na cela e o libertou pro céu. 
(ALDEMAR PAIVA) 

 Aldemar Buarque de Paiva (Maceió, 20 de Julho de 1925- Recife, 04 de Novembro de 2014) foi um poeta, cordelista, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico e publicitário brasileiro.
Foi o fundador da Rádio Difusora de Alagoas.
 Oficial do Exército, foi transferido para o Recife, actuando inicialmente na Rádio Clube de Pernambuco, em substituição a Chico Anísio como produtor, apresentador e director artístico.

Informação: Wiquipédia